
O ginásio escuro mais parecia um desses abrigos pós-tragédia. Cento e cinquenta pessoas vestidas com roupas velhas, que não pareciam suas, mas de algum parente morto há muito tempo. Não havia cadeiras em número suficiente. Os que chegaram primeiro ocuparam os assentos de plástico branco. Alguns deixaram a bolsa na cadeira ao lado ou a abraçaram, reservando o lugar para outro alguém. Os que estavam em pé, assim permaneceram até perceberem que o motivo que os levara ali, ainda os faria esperar por muitas horas. Sentaram- se no chão mesmo.
Na entrada, kits com pão, rosca e leite achocolatado eram distribuídos. Aos poucos, o ambiente ia mudando com o que sobrou do café-da-manhã sendo deixado em qualquer lugar. Bananas, mexericas, maçãs foram entrando no cardápio com o passar do tempo. Aquelas pessoas, que chegaram ás 7 da manhã em ponto, pareciam comer para se distrair. Uma, duas, três horas passaram e nada acontecia. Estavam todos esperando para fazer uma “pontinha” nas gravações do filme "Chico Xavier", de Daniel Filho.
A aglomeração aconteceu no dia 22 de agosto, último dia dos dois meses de gravações. Sábado cinzento, que amanheceu prometendo frio para o resto do dia (promessa descumprida mais tarde pelo calor típico de Uberaba). Durante a semana, anúncios foram colocados em jornais, rádios e TV, convidando a população da cidade para figurar naquelas que serão as últimas cenas do longa. De acordo com o convite, 2.500 pessoas seriam necessárias para fazer “volume” nas cenas externas. Outras 150 fariam a chamada “figuração especial” em cenas internas. Para este grupo houve seleção.
Nos dias abertos para cadastro, terça, 18, e quarta-feira, 19, pessoas de diferentes idades, perfis econômicos e físicos se inscreveram no Centro de Cultura José Maria Barra para participar da seleção. Entre os interessados não poderiam faltar as mães preocupadas em mostrar as habilidades dos herdeiros, como aquela que queria colocar na ficha (que só pedia, nome, endereço, documentos e telefone) que sua filha era ginasta olímpica, bailarina clássica e contemporânea, ou a outra que ficou apreensiva por não ter levado o book da menina. Para o alívio delas, Aldo Pedrosa, coordenador da equipe uberabense que auxiliou no filme, explicou que nada disse seria levado em conta.

A produção do filme chegou quinta-feira á noite para verificar as 450 fichas de cadastros, acompanhadas por fotos dos rostos dos candidatos, tiradas por Aldo. Na sexta-feira, Monalisa Andrade estava trabalhando em uma fazenda a 9 km de Uberaba, quando recebeu a ligação que a fez largar tudo que estava fazendo e pegar um taxi para casa, na cidade. Ela nem havia pensando em uma roupa adequada quando recebeu ligação de um dos produtores pedindo que comparecesse o mais rápido possível ao Centro de Cultura, para mostrar o figurino que pretendia usar na gravação. Monalisa levou uma blusa roxa de manga comprida, calça de lycra marrom, sapatilhas prata e um lenço rosa com bolinhas vermelhas. Escolha aprovada. Exatamente assim estava ela no sábado, esperando para fazer sua parte no filme junto com mais 149 selecionados, e mais alguns que não passaram na seleção, mas decidiram por conta própria acompanhar as gravações. Me insiro neste último grupo.
Naquele dia, o Ginásio da Rua João XXIII, Parque das Américas, virou um grande encontro de pessoas que conviveram com o médium, ou simplesmente o admiravam. Por todos os lados os diálogos giravam em torno de histórias sobre como o conheceram e como ele havia influenciado de alguma forma suas vidas. Muitos exibiam fotos e cartas. Em um dos círculos de conversa, Amazonas Fonseca Neto contava como a vida dele mudou completamente por causa de Chico Xavier. Inclusive, geograficamente.
Amazonas, debaixo de seu chapéu de vaqueiro branco, com um sotaque gaúcho que o distinguia dos que estavam ali, afirma que se mudou do Rio Grande do Sul para Uberaba por causa do médium. “Eu sempre quis conhecer Uberaba. Conheci a história do Chico através da mídia, jornais, livros. E isso me influenciou muito. Quando eu cheguei ao Triângulo Mineiro, eu simplesmente fui buscar minha mudança no sul e vim fixar minha residência em Uberaba. E aqui eu encontrei minha paz, a tranqüilidade.” O mais curioso é que tudo isso aconteceu há um ano, seis após a morte do espiríta.
O gaúcho gravou uma das primeiras cenas do dia, junto com um pequeno grupo escolhido dentre os presentes. A cena se passa ao lado do ginásio, dentro do centro espírita Casa da Prece, fundado por Chico Xavier. Aos que ficaram, restou esperar ansiosamente a próxima cena, sem saber muito bem como iriam participar. Enquanto isso, a única informação que chegava dos produtores era que a conversação no local estava atrapalhando as gravações ao lado.
Durante a espera, a feição dos figurantes ia mudando. O figurinista, Alex Brollo, trocou e retocou a roupa de várias pessoas com o “guarda-roupas” que trouxera dos estúdios da Globo. Os trajes ficavam cada vez mais velhos, puídos, alguns estavam rasgados. Os penteados variavam entre, trancinhas, lenços e coques a lá Amy Winehouse. A única maquiagem era para acentuar o aspecto sujo das roupas.
Quase meio-dia e o sol quente de Uberaba fazia justiça a fama. Na casa da sopa os figurantes aguardavam nos bancos de cimento, como fazem os freqüentadores da casa, enquanto fotógrafos, cinegrafistas e repórteres da imprensa local faziam a festa. Além deles, autoridades, fazendeiros de renome na cidade, políticos e parentes de políticos, (inclusive a mãe que havia esquecido o book da filha, que descobrimos ser parente do vice-prefeito), desfilavam pelo local como se as filmagens fossem um grande evento social.
Após a socialização, os figurantes escolhidos para viver “Um Dia de Casa da Sopa” foram levados para a parte de trás do local e sentaram-se em circulo nos bancos da pequena varanda. Neste momento, surge o ator Nelson Xavier que recebeu das mãos de Eurípedes, filho de Chico, o Evangelho que pertenceu ao pai. Os que conheceram líder espiritual se emocionaram ao ver Nelson chegar, sentar-se na roda onde Chico sentava, com o livro que ele usava, ao lado do amigo Tio Pedro, um dos mais antigos colaboradores da Casa da Prece.
Daniel Filho agradeceu a presença de todos e se afastou do local. Cris D’Amato, assistente de direção, a quem ele se refere como sendo seu braço-direito, assumiu o comando das últimas cenas. Não havia roteiro, ela ia perguntando a Eurípedes e Tio Pedro como funcionava tudo ali, na década de 70. Câmera, som, luz (que era a ambiente mesmo) e "ação". Foi o que disse Cris, dando a deixa para Nelson iniciar a leitura de um capítulo do Evangelho.
Em coletiva a imprensa uberabense no dia 26, Nelson Xavier, acompanhado por Daniel Filho e a atriz Rosi Campos, declarou que estudar e viver o personagem havia mexido com ele, não a ponto de convertê-lo, mas o suficiente para emocioná-lo na frente dos jornalistas: “Quando eu visitei, por causa desse projeto, essa cidade pela primeira vez, e também todos os pontos por onde ele (Chico Xavier) passou, todas as vezes em que eu me referia a ele, que eu pensava um pouco nele, e até hoje, eu me emociono profundamente. Isso durante toda a realização do filme e até aqui também.”
A par disso, imagine o que não teria passado na cabeça do ator ao reproduzir a próxima cena: Uma fila andando vagarosamente, em um ritmo melancólico. Cerca de 40 pessoas recebiam os pães separados uns dos outros por Eurípedes, e entregues cuidadosamente por Tio Pedro. Mais dois passos, e Chico recolhe algumas moedas de cruzeiro em um pratinho de metal. Entrega duas, três moedas aos passantes, que agradecem a caridade beijando suas mãos. Ele, em um gesto de humildade, encurva as costas com uma delicadeza que denuncia a fragilidade do corpo envelhecido, e beija-lhes as mãos também. O gesto parece lhe custar bastante, mas ele não deixa que ninguém passe sem ser beijado. Uma vez questionado sobre o ato, o líder espiritual respondeu que beijava as mãos das pessoas, porque não conseguia alcançar os pés delas.
A par disso, imagine o que não teria passado na cabeça do ator ao reproduzir a próxima cena: Uma fila andando vagarosamente, em um ritmo melancólico. Cerca de 40 pessoas recebiam os pães separados uns dos outros por Eurípedes, e entregues cuidadosamente por Tio Pedro. Mais dois passos, e Chico recolhe algumas moedas de cruzeiro em um pratinho de metal. Entrega duas, três moedas aos passantes, que agradecem a caridade beijando suas mãos. Ele, em um gesto de humildade, encurva as costas com uma delicadeza que denuncia a fragilidade do corpo envelhecido, e beija-lhes as mãos também. O gesto parece lhe custar bastante, mas ele não deixa que ninguém passe sem ser beijado. Uma vez questionado sobre o ato, o líder espiritual respondeu que beijava as mãos das pessoas, porque não conseguia alcançar os pés delas.
Ao final da tomada, Alex Brollo quebra o clima em que todos estavam submersos e surge irritado no meio dos figurantes. Um senhor de camisa pólo azul havia se infiltrado na cena. "O que o senhor está fazendo aí? Só dá você com essa blusa no meio dos pobrinhos", pergunta como se o penetra tivesse acabado com a cena. O que pode até ter ocorrido, mas nem por isso ela foi regravada.
Para finalizar as gravações na Casa da Sopa, os figurantes preencheram os bancos do refeitório, oraram com Tio Pedro e almoçaram a galinhada servida. A cara de fome não era encenação, o relógio marcava quase duas da tarde quando o almoço foi servido. Na saída do refeitório, encontro com Monalisa cabisbaixa. Ela foi escolhida para fazer o papel de uma moça que servia a “sopa”. De última hora, no entanto, o produtor a deixou de fora porque mudaram de ideia sobre a roupa. Ao contrário do que haviam dito antes, o figurino não era adequado. Na verdade, cabisbaixa era pouco, ela estava revoltada. “Ele colocou uma ilusão na minha cabeça e de repente eu chego aqui a realidade é outra. Foi outra para mim. Minha prima participou, minha amiga participou, porque elas estavam vestidas adequadamente. Isso é minha revolta.”
De volta Rua João XXIII, a produção já preparava o local para a cena em que Chico Xavier chega de São Paulo, após a exibição do programa Pinga-Fogo que o tornou conhecido nacionalmente. A quantidade necessária de pessoas que compareceram foi bem menor que a necessária, a previsão era de 2.500. Nada que alguns efeitos especiais não pudessem resolver, mas era necessário que os figurantes ficassem estáticos para que fossem multiplicados na pós-produção.
Neste momento Daniel Filho tirava fotos com quem quisesse. Ele ria, cantava, e deixava tudo por conta de Cris. A sensação dominante da equipe era de missão cumprida. As cenas gravadas em Uberaba não faziam parte do roteiro original do filme, foram gravadas para desencargo de consciência do diretor: A gente não pode fazer um filme de Chico Xavier sem ir a Uberaba, declarou na coletiva. Segundo ele, Uberaba e Pedro Leopoldo não têm a cara de Minas Gerais que ele queria dar ao filme. Por isso Tiradentes foi usada no lugar da cidade natal do médium, e as cenas internas foram feitas no Rio de Janeiro. Campinas também foi palco do filme. Estas afirmações de Daniel colocam um ponto final nas picuinhas levantadas pelos jornais da cidade frente à falta de apoio da Prefeitura e da Secretária de Cultura de Uberaba para que o filme fosse rodado aqui.
Ao fim do dia, a Rua João XXIII, que reviveu por algumas horas a devoção ao morador mais ilustre que já teve, esvaziou-se rapidamente. A equipe do diretor parecia andar mais leve, deram o melhor de si, agora, era com a pós-produção. Mas nem todos ficaram aliviados. Após algumas horas do encerramento, eis que recebo uma ligação do gaúcho Amazonas. Assim que chegou em casa ele ligou para os parentes no Sul para contar a novidade, e pedir para ficarem atentos quando fossem assistir ao filme, pois em algum momento ele haveria de aparecer na tela. Os familiares perguntaram se ele se lembrou de assinar a autorização de imagem, mas ele se esqueceu. "Será que vão cortar minha cena? Tem perigo?". Pergunta ele achando que eu tenho algum contato com a produção. Eu respondi que eles nem sabiam o nome dos figurantes. Mas ele dispara a falar, denunciando o nervosismo só de pensar na possibilidade de não aparecer no vídeo.
Bom, se no dia 2 de abril, quando estréia o filme em todo o país, você se ver um gordinho com chapéu de cowboy branco em uma das últimas cenas, foi porque Chico Xavier conseguiu mudar a vida de Amazonas duas vezes: quando ele se mudou para Uberaba e quando ele pôde registrar em vídeo e mostrar para todo país a cena que ele gostaria de ter vivido, mas somente o cinema pôde proporcionar.
Fotos: 1 e 2 por Marilia Cândido; 3 por Michelle Parron; 4 e 5 por Diego Aragão.
